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Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Luís Filipe Redes -
Número de respostas: 5
  • Olá,

Como frequentemente acontece, quando analisamos friamente os casos em que estivemos envolvidos, damo-nos conta de que as nossas razões não eram tão robustas como pensámos na altura.

  • Primeiro, o ideal não é apresentar as frases no pretérito perfeito, mas sim no presente do indicativo. Procedem, assim, tanto Vladimir Propp como Lévi-Strauss. O primeiro trata das funções, acontecimentos que fazem avançar a história (Ver Vladimir Propp (1928) Morfologia do conto). O segundo trata dos mitemas, frases que expressam unidades mínimas de qualquer mito [vulgo: história] (ver Lévi-Strauss, Antropologia estrutural). Compreende-se que seja assim, pois estamos a analisar o que está escrito e não a narrar.
    • No 1.º e no 2.º ciclo, pelo menos, creio que o pretérito perfeito é mais intuitivo.
  • Segundo, trata-se apenas do modo de apresentação e não do assunto propriamente dito. Talvez a nominalização, isto é, a apresentação da sequência com expressões nominais e não com frases, possa criar alguma confusão com o que seria uma análise temática.
  • Terceiro, mesmo numa sequência narrativa, não há problema em se iniciar com uma frase que expressa o estado da situação inicial e não um evento.
  • Vou experimentar as três hipóteses com o conto "A velhinha e o médico" a seguir, que verterei no próprio "post". 
Em resposta a 'Luís Filipe Redes'

Re: Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Luís Filipe Redes -

Exercício de completar uma sequência de proposições de um texto narrativo. 

(A cinzento, assinalam-se as proposições a completar)

Completa a sequência de acontecimentos da história.
(Apresentação em pretérito perfeito)
  1. A Zenóbia, uma velha viúva, começou a falhar a vista.
  2. Zenóbia chamou o médico da vila que se chamava Zaratustra.
  3. Zaratustra visitou várias vezes Zenóbia para a observar e cada vez que lá ia tirava-lhe um objeto precioso às escondidas.
  4. Passado um mês, Zaratustra disse que Zenóbia já estava boa e pediu que ela lhe pagasse os seus serviços.
  5. Zenóbia declarou que não pagava.
  6. Zaratustra queixou-se ao juiz.
  7. No julgamento, Zenóbia disse que não estava curada e que estava até pior porque tinha deixado de ver os objetos de valor que tinha em casa.
  8. Zaratustra foi obrigado a devolver tudo o que tinha roubado.
(Apresentação em presente do indicativo)
  1. A Zenóbia, uma velha viúva, começa a falhar a vista.
  2. Zenóbia chama Zaratrusta, o médico da vila.
  3. Zaratustra visita várias vezes Zenóbia para a observar e, cada vez que lá vai, tira-lhe um objeto precioso às escondidas.
  4. Passado um mês, Zaratustra diz que Zenóbia já está boa e pede que ela lhe pague os seus serviços.
  5. Zenóbia declara que não paga.
  6. Zaratustra queixa-se ao juiz.
  7. No julgamento, Zenóbia diz que não está curada e que está até pior porque já não vê os objetos de valor que tem em casa.
  8. Zaratustra é obrigado a devolver tudo.
(Apresentação nominalizada)
  1. Falha da vista de Zenóbia.
  2. Consulta ao médico da vila.
  3. Visitas de Zaratustra a Zenóbia para a observar e, roubo de objetos preciosos às escondidas.
  4. Alta de Zenóbia e pedido de pagamento dos seviços do médico.
  5. Recusa de pagamento.
  6. Queixa ao juiz por Zaratrusta.
  7. Julgamento: argumento de Zenóbia que aponta para a não visibilidade dos seus objetos de valor.
  8. Condenação de Zaratustra a devolver tudo.

Opinião pessoal: a resposta na forma nominalizada para ser coerente com o que se apresenta seria particularmente difícil para os alunos.

 

A velhinha e o médico

Era uma vez, numa longínqua aldeia do Oriente, uma velha viúva chamada Zenóbia. Vivia sozinha, pois os seus dois filhos estavam sempre a viajar pelo mundo e só vinham a casa de vez em quando. Como ainda estava muito lúcida, as pernas andavam bem e o seu estômago até pedras digeria, a nossa velhota tinha uma vida muito agradável, tanto mais que nem sequer lhe faltava dinheiro. Infelizmente, com os anos chegam também algumas doenças, mais ou menos graves. A ela começou a enfraquecer a vista. De começo, não deu muita importância ao facto, mas como o mal aumentasse, decidiu ir ao médico da vila, que se chamava Zaratustra.

Zaratustra era competente no exercício da sua profissão, mas também ambicioso e desonesto. Ora, naquela época, havia poucos clientes, uma vez que os habitantes da terra gozavam de uma saúde de ferro. Por isso, mal soube que a velhota andava à sua procura, correu como um raio ao seu encontro.

- Bom dia, minha querida Zenóbia! Em que lhe posso ser útil? Doem-lhe os ossos? Alguma variz lhe rebentou nas pernas?

E enquanto fazia estas perguntas à sua cliente, ia coscuvilhando em volta. Nunca entrara naquela casinha... e que casinha! O que ali ia de objectos de valor! Aqui uma pequena ânfora de alabastro, ali uma pequena lâmpada de ouro, além um tapete de quarto em seda com um magnífico padrão com palmeiras e leões, sobre o qual estavam umas pantufas bordadas com fio de prata...

- Não, não é nada disso. É a vista que não está bem, Zaratustra. A cada dia que passa vejo pior e por este andar dentro de pouco tempo não poderei fazer as coisas mais simples. Por isso pedi que me visitasse e me dissesse que esperanças de cura posso ter.

- Chegue-se aqui para perto da luz, Zenóbia... Olhe ali para cima... isso, assim mesmo... Agora procure seguir com o olhar o meu dedo a mexer... isso... muito bem!

Zaratustra deu logo conta de que a doença não era grave. A velha viúva apenas se tinha cansado mais do que o normal ao tecer à noite, à luz fraca da candeia. Para ficar boa bastar-lhe-ia um pouco de descanso e alguns remédios. Mas a ocasião era demasiado boa.

- Ah, isto ainda demora o seu tempo – afirmou. - Mas vou conseguir curá-la. A partir de amanhã, passarei todos os dias a pôr-lhe nos olhos um remédio inventado por mim. Vai ter de passar algumas horas por dia de olhos fechados. E é tudo.

Aliviada, Zenóbia despediu-se e, na manhã seguinte, Zaratustra bateu à porta. Trazia na mão um pequeno recipiente com o seu prodigioso emplastro. Mandou a velhinha deitar-se, medicou-a e despediu-se. Mas, ao chegar ao centro do quarto, voltou para trás nos bicos dos pés, pegou na pequena ânfora de alabastro e foi-se embora.

No dia seguinte, aconteceu o mesmo: foi a vez da candeia de azeite. Depois desapareceram o tapete, um punhal com cabo de marfim, algumas meadas de seda, um grande prato de bronze... Entretanto, Zenóbia, que ia recuperando a vista, começava a sentir o seu quarto cada vez mais despido. Um mês depois, Zaratustra declarou que a velhota estava boa e pediu os seus honorários: vinte moedas de ouro.

- Não lhe pago - respondeu tranquilamente Zenóbia.

E, por mais que o médico reclamasse e se zangasse, ela não cedeu.

A Zaratustra, não restou outro remédio senão ir ter com o juiz da aldeia. No dia combinado, os dois apresentaram-se diante dele.

- Eu curei esta mulher! - começou por dizer Zaratustra, em tom colérico. - Por isso reclamo os meus honorários. Mas ela recusa-se a pagar-mos!

- É verdade ou não é, senhor juiz, que apenas se pagam os serviços prestados? - perguntou Zenóbia.

- Com certeza, boa mulher - concordou o juiz.

Pois bem, não pago nada a este homem porque, contrariamente ao que afirma, não me curou. Muito pelo contrário, posso garantir-lhe que fiquei muito pior do que estava antes.

- Pode provar o que afirma? - perguntou o juiz. - É que os seus vizinhos, aqui presentes, dizem que anda direita como um fuso e veloz como um raio. Portanto, deve ver...

- A prova é esta- interrompeu-o a velha. - Antigamente via todos os  objectos de valor que tinha dentro de casa, mas depois de ele me ter tratado deixei de os ver. Nem um sequer!

Perante isto, o público desatou a rir às gargalhadas, e Zaratustra, envergonhado, teve de devolver tudo o que roubara.

Moral da história: são os próprios desonestos que fornecem os melhores argumentos contra si mesmos.

 

ESOPO, As mais belas fábulas de Esopo, Il. De Michael Fiodorov, col. Grandes ilustradores da Escola Russa, Porto, Civilização, D.L., 1993, pp. 65-68.

Em resposta a 'Luís Filipe Redes'

Re: Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Justina Maria Santos Duarte Pereira Coutinho -
Boa noite, Luís
Acabamos por fazer uma nova versão da tarefa: Apresentação de sequências de macroproposições do texto "Sempre é uma companhia":
Efetivamente, é mais fácil traçar a sequência dos acontecimentos quando se trata de um conto popular.


“Sempre é uma companhia”, Manuel da Fonseca
1. Batola, homem muito preguiçoso, vive com a sua mulher numa aldeia bastante isolada.
2. ________________________________________________________________
3. Os dois viajantes (um vestido de ganga e outro bem vestido) pedem água a Bartola para arrefecer o motor do carro.
4. ________________________________________________________________
5. Entra na loja, conversa com o dono e tenta vender-lhe um aparelho barato que lhe traz as vantagens de saber todas as notícias do mundo e ouvir todo o tipo de música.
6. ________________________________________________________________
7. No entanto, a mulher de Bartola, que não quer o aparelho, interrompe a compra.
8. ________________________________________________________________
9. Na tentativa de apaziguar a discussão entre o casal, o vendedor propõe que a telefonia fique à experiência durante um mês.
10. ________________________________________________________________
11. A aldeia ganha uma nova vida e o próprio Bartola torna-se um homem mais ativo.
12. ________________________________________________________________
13. Perante tal tristeza, a mulher de Bartolo concorda com a compra da telefonia, argumentando que “sempre é uma companhia”.



SOLUÇÕES
1. Batola, homem muito preguiçoso, vive com a sua mulher numa aldeia bastante isolada.
2. Um dia, um carro parou junto à sua loja.
3. Os dois viajantes (um vestido de ganga e outro bem vestido) pedem água a Bartola para arrefecer o motor do carro.
4. Enquanto o de ganga trata do carro, o outro observa a paisagem entediante e repara que as casas têm eletricidade.
5. Entra na loja, conversa com o dono e tenta vender-lhe um aparelho barato que lhe traz as vantagens de saber todas as notícias do mundo e ouvir todo o tipo de música.
6. O vendedor apressa-se em apresentar-lhe os papéis relativos à compra, em prestações, do aparelho.
7. No entanto, a mulher de Bartola, que não quer o aparelho, interrompe a compra.
8. Os dois discutem, acabando a mulher por ameaçar sair de casa se ele o comprar.
9. Na tentativa de apaziguar a discussão entre o casal, o vendedor propõe que a telefonia fique à experiência durante um mês.
10. A partir desse dia, todos os habitantes passam a frequentar a loja e, consequentemente, além de ouvirem as notícias, conversam e convivem de forma animada.
11. Muda o ambiente na aldeia e o próprio Bartola torna-se um homem mais ativo.
12. Passado um mês, todos estão desolados por ficarem sem a telefonia que lhes dá um sentido de pertença não só à aldeia como ao mundo.
13. Perante tal tristeza, a mulher de Bartolo concorda com a compra da telefonia, argumentando que “sempre é uma companhia”.


Justina Coutinho, Maria José Varandas e Helena Spínola
Em resposta a 'Justina Maria Santos Duarte Pereira Coutinho'

Re: Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Justina Maria Santos Duarte Pereira Coutinho -
Boa tarde
Envio novamente o trabalho com o nome da personagem corrigido: BATOLA.
“Sempre é uma companhia”, Manuel da Fonseca
1. Batola, homem muito preguiçoso, vive com a sua mulher numa aldeia bastante isolada.
2. ________________________________________________________________
3. Os dois viajantes (um vestido de ganga e outro bem vestido) pedem água a Batola para arrefecer o motor do carro.
4. ________________________________________________________________
5. Entra na loja, conversa com o dono e tenta vender-lhe um aparelho cheio de qualidades
6. ________________________________________________________________
7. A mulher de Batola, que não quer o aparelho, interrompe a compra.
8. ________________________________________________________________
9. Na tentativa de apaziguar a discussão entre o casal, o vendedor propõe que a telefonia fique à experiência durante um mês.
10. ________________________________________________________________
11. A aldeia ganha uma nova vida e o próprio Batola torna-se um homem mais ativo.
12. ________________________________________________________________
13. Perante tal tristeza, a mulher de Batola concorda com a compra da telefonia, argumentando que “sempre é uma companhia”.



SOLUÇÕES
1. Batola, homem muito preguiçoso, vive com a sua mulher numa aldeia bastante isolada.
2. Um dia, um carro parou junto à sua loja.
3. Os dois viajantes (um vestido de ganga e outro bem vestido) pedem água a Bartola para arrefecer o motor do carro.
4. Enquanto o de ganga trata do carro, o outro observa a paisagem entediante e repara que as casas têm eletricidade.
5. Entra na loja, conversa com o dono e tenta vender-lhe um aparelho cheio de qualidades.
6. O vendedor apressa-se em apresentar-lhe os papéis relativos à compra, em prestações, do aparelho.
7. No entanto, a mulher de Batola, que não quer o aparelho, interrompe a compra.
8. Os dois discutem, acabando a mulher por ameaçar sair de casa se ele o comprar.
9. Na tentativa de apaziguar a discussão entre o casal, o vendedor propõe que a telefonia fique à experiência durante um mês.
10. A partir desse dia, todos os habitantes passam a frequentar a loja e, consequentemente, além de ouvirem as notícias, conversam e convivem de forma animada.
11. Muda o ambiente na aldeia e o próprio Batola torna-se um homem mais ativo.
12. Passado um mês, todos estão desolados por ficarem sem a telefonia que lhes dá um sentido de pertença não só à aldeia como ao mundo.
13. Perante tal tristeza, a mulher de Batola concorda com a compra da telefonia, argumentando que “sempre é uma companhia”.


Justina Coutinho, Maria José Varandas e Helena Spínola
Em resposta a 'Justina Maria Santos Duarte Pereira Coutinho'

Re: Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Luís Filipe Redes -
Boa noite, obrigado pela vossa contribuição.
Têm toda a razão a respeito dos contos populares terem sequências narrativas mais fáceis de reconstituir.
E há, neste, toda uma derivação (catálises para Barthes) que dá densidade psicológica às personagens, como a história do Rata que não pode entrar na sequência nuclear das macroproposições. Mas creio que, para compreender a história, o primeiro passo é perceber essa linha que vocês aqui apresentam.
Gostei que tivessem utilizado o presente do indicativo.
Curiosamente o narrador utiliza o presente para narrar factos singulares. Antes de os vendedores irem embora, o pretérito perfeito aparece só na memória do suicídio do Rata:
"Veio o verão com os dias enormes, a miséria cresceu. Uma tarde, lá se arrastou como pôde e atirou-se para dentro do pego da ribeira da Alcaria."
Depois, reparece após a partida dos vendedores da telefonia:
"Mas, nessa tarde, vieram todos à venda, onde entraram com um olhar admirado. Uma voz forte, rápida dava notícias da guerra."
É muito interessante este vaivém do presente para o pretérito, mas o que interessa aqui é a sequência de acontecimentos logicamente encadeados e não os tempos verbais utilizados. Até a instalação do aparelho de telefonia é uma sequência narrativa subordinada.
 
Após este trabalho de leitura, há que ir à descrição da aldeia, dos vendedores, do ambiente social (que deve ser deduzido da leitura e não sobreposto pela assunção do Manuel da Fonseca como neorrealista). Há também o contexto, a referência histórica, etc. De que homem se trata aqui?
 
"Ouve-se e vê-se, querendo, a alegria que certas notícias trazem aos ceifeiros, o gosto e o propósito que eles têm ao ouvir determinada voz que é de todas a mais desejada e acreditada. [...] A esperança de melhor vida para todos, que a voz poderosa do homem desconhecido levava até à aldeia, apagava-se nessa noite para não mais se ouvir.
 
Em resposta a 'Luís Filipe Redes'

Re: Forma de apresentação de sequências de macroproposições de um texto narrativo

por Elizabete Maria Luís de Nazaré -
Boa tarde a todos,

Segue o exercício que fizemos sobre o conto "História da Baleia" de António Sérgio.
(as proposições que deverão ser introduzidas pelos alunos correspondem aos números pares; não consegui sublinhar nem escrever com outra cor)

1. A baleia comeu todos os peixes que encontrou no mar, exceto um salmonete vermelhete.
2. O salmonete sugeriu que experimentasse comer homens.
3. O salmonete indicou a localização de um marinheiro.
4. A baleia seguiu a orientação do salmonete, encontrou o marinheiro e engoliu-o.
5. O marinheiro, dentro do estômago da baleia, não ficava quieto, incomodando-a.
6. O salmonete aconselhou a baleia a soltá-lo.
7. O marinheiro recusou, pois queria que a baleia o levasse para a sua terra; só depois sairia.
8. A baleia concordou.
9. Ainda lá dentro, o marinheiro construiu uma grade com a madeira da jangada e com os seus suspensórios; prendeu-a na garganta da baleia.
10. A partir desse momento, a baleia só conseguiu comer peixinhos pequeninos.
11. O marinheiro viveu feliz para sempre com a sua esposa (sem os suspensórios!).

(trabalho realizado por Celeste Rosado, Elizabete Nazaré, Liliana Costa e ______________)