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Texto "Mãe", de J. Almada Negreiros

Texto "Mãe", de J. Almada Negreiros

by Filomena Viegas -
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Olá!

Lembram-se de  ter referido, na última sessão, o texto (poema?) "Mãe", publicado no livro de José de Almada Negreiros A invenção do dia claro ?
Ei-lo:

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas que eu viagei, tão parecidas com as que não viagei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a meza. Eu tambem quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a meza.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


Encontrei a publicação completa de A invenção do dia claro em acesso livre nesta ligação, do The Project Gutenberg eBook. É uma versão de texto, sem a formatação para o livro, sem capa e sem o autorretrato do autor.

Encontrei igualmente a leitura oral do livro

no Youtube.

Finalmente, a edição que tenho encontra-se à venda aqui. 

Um abraço e bom resto de domingo.