Eu, leitora e escritora: "Breve história da minha literacia".

Eu, leitora e escritora: "Breve história da minha literacia".

by Eva P. -
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A minha história com as palavras, com os números, com a descoberta do mundo através do conhecimento, é uma tapeçaria tecida com fios de muitas cores e texturas. Alguns desses fios são de algodão grosseiro, de raízes humildes numa família portuguesa onde, nos anos 70, a prioridade era o trabalho operário árduo. Outros são fios dourados de oportunidade e viagem, trazidos pela decisão corajosa dos meus pais de emigrar para a Alemanha em busca de uma vida melhor. Eu, a mais velha de três irmãs, tinha apenas dois anos quando esta nova etapa começou.

Foi na Alemanha, entre os 2 e os 12 anos, que os alicerces da minha literacia se ergueram. Aprendi a ler e a escrever em alemão, a língua que estruturava o meu dia a dia na escola e na rua. Mas em casa, o português era o cimento que nos mantinha unidos, a língua dos afetos, das histórias e das saudades. Na escola alemã, tive a sorte de encontrar uma professora primária que se tornaria uma figura fundadora na minha vida. Através dos contos dos Irmãos Grimm, ela não só me ensinou a língua alemã, como despertou em mim o fascínio mágico pelas histórias, pela sonoridade das palavras e pelo poder da narrativa. Essa paixão pela leitura e pela escrita, nascida em alemão, floresceu em paralelo com o português falado em casa, alicerçando o que hoje entendo como o início da minha biliteracia - a capacidade de ler e escrever com fluência em dois universos linguísticos e culturais.

Cresci, assim, numa espécie de bilinguismo natural e necessário, sem ainda perceber que essa dualidade seria, no futuro, uma grande ferramenta profissional.

Aos 12 anos, o regresso a Portugal trouxe o desafio de consolidar a língua portuguesa na sua forma académica, de aprofundar uma cultura que conhecia mais pelo coração do que pelos livros. Foi um reencontro que moldou a minha identidade e solidificou o desejo de me tornar professora. Queria ser ponte. Queria ajudar crianças a navegarem entre mundos, a sentirem--se seguras nas suas línguas e nas suas raízes.

Anos mais tarde, já  enquanto professora do 1.º ciclo, mal tinha começado a pisar o chão das salas de aula portuguesas, a vida apresentou-me um convite que parecia ter sido desenhado à minha medida. Em 1998, no meu segundo ano de serviço, fui selecionada para integrar o projeto-piloto da Escola Oficial Europeia de Berlim, na Alemanha. Era uma oportunidade única: criar, do zero, uma escola portuguesa que oferecia um currículo bilingue que já existia para outras línguas como inglês, francês, espanhol, italiano, turco e polaco.

Durante seis anos, fui professora nesse ambiente singular. Iniciei com uma turma de 1.º ano de escolaridade, metade de língua materna alemã, metade de língua materna portuguesa (de Portugal, Brasil e PALOP).

Nessa experiência pioneira, a literacia era dupla e partilhada. Trabalhava em par pedagógico com um docente alemão. A minha missão era tripla: ensinar Português Língua Materna aos falantes de português, apresentar o Português como Língua Parceira aos falantes de alemão (uma aula de descoberta e ponte), e lecionar o Estudo do Meio e as Expressões a toda a turma, num português que fosse inclusivo e estimulante para todos. Enquanto isso, o meu colega fazia o mesmo espelho com a língua alemã e ensinava Matemática.

Foi uma lição prática e profunda de como a literacia não é só decifrar código, mas construir significado e expressão num espaço de intercultura. Inspirada por este desafio, aprofundei o meu conhecimento académico, concluindo, em 2001, a pós-graduação “European Master of Intercultural Education” na Freie Universität Berlin.

O regresso a Portugal em 2004, com o fim do financiamento do projeto, não apagou essa visão. Trouxe-a comigo. Nas diferentes escolas de Lisboa e da Margem Sul onde lecionei, e agora no Agrupamento de Pinhal de Frades, no Seixal, onde sou quadro de Agrupamento, carrego a convicção de que a literacia é a capacidade de navegar entre significados, culturas e perspectivas.

Atualmente, aos 54 anos, com uma carreira que começou em 1997, carrego esta história dentro de mim. A menina emigrante que aprendera a ler em duas línguas tornou-se a professora que ajudou a construir uma sala de aula onde nenhuma língua era estrangeira, apenas parceira. A minha literacia é, portanto, uma história de fronteiras diluídas. É a consciência de que o primeiro ciclo não é só o ciclo inicial da aprendizagem da leitura e da escrita; é, potencialmente, o ciclo inicial da formação de cidadãos do mundo, capazes de entender e respeitar a pluralidade de vozes que compõem a sinfonia humana. E é essa a lição mais profunda que, desde então, tento partilhar.

Presentemente, vivo uma nova e doce dimensão da minha história de literacia. Sou, como aprendi a designar, uma "mãe de idade avançada". Tenho um filho de 5 anos a quem conto e leio histórias em português, com a mesma intencionalidade e amor com que a minha saudosa professora alemã me lia os contos de fada e outros. E tenho outro filho bebé de 8 meses, pelo qual estou de licença de paternidade até ao fim de janeiro de 2026.

Agora, como guardiã do despertar literário, vejo como a palavra falada e escrita em português vai criando raízes no meu filho mais velho, enquanto a memória do alemão e a sensibilidade intercultural que adquiri permanecem como um subtil pano de fundo do meu ser.