Trabalho final.
Re: Trabalho final (assíncrono) de Luisa Fernandes
Bom dia,
Obrigado pela sua proposta.
Limitar-me-ei a alguns notas.
Não encontrei o meu exemplar da obra. Por isso, procurei uma versão digital que encontrei na Escola Virtual, mas a importação para o computador falhou. Há lá muito material, incluindo ficheiros de som como leituras em voz alta.
Continuação
Desculpem-me esta mensagem aos bocadinhos. É que tive que fechar o tablet muito rapidamente ao chegar ao meu destino numa viagem no Expresso e guardei o que já tinha feito para não o perder.
Já tenho comigo um exemplar da obra, da Biblioteca Municipal, que já reli.
Primeiro, as minhas impressões: a obra tem um conteúdo muito importante, porque a história pode repetir-se como Marx dizia: "A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Ele referia-se ao golpe do presidente Charles-Louis Napoléon Bonaparte, em 1852 - a passar a França de novo da República para a Monarquia (Napoleão III), que estaria a repetir Napoleão Bonaparte. Ora, eu creio que ela já se repetiu muitas vezes em sítios diferentes, não esta da França, mas a da ascensão de líderes como Hitler. Ora os farsantes podem e têm em vários lugares feito tragédias suas. Lembro por exemplo, do presidente Bokassa da África Central a declarar-se Imperador, imitando Luís Bonaparte. E voltando ao nosso tema, o chanceler Adolfo Hitler a declarar-se Führer não é assim tão diferente. Só foi muito pior.
E o que vemos neste romance é uma personagem, Rose, a viver essa mudança e a sentir o chão a falhar-lhe por baixo dos seus pés. O mundo em que vivi era aquele da sua aldeia idílica onde todos viviam sem problemas e o romance trata do fim progressivo desse mundo da República de Weimar, mas mais do que isso, mesmo o da Alemanha imperial, o 2º Reich, em que muitos judeus como alemães orgulhosos tinham participado na economia, na ciência, na tecnologia, nas guerras do Kaiser, e até no poder político como líderes tanto à direita como à esquerda, apesar da falta de liberdade total que caraterizava essa monarquia constitucional. De facto, o chamado problema judeu estava resolvido na Alemanha desde o início do século XIX, num processo de integração em que se destacara Moses Mendelssohn, o mesmo sobrenome do famoso músico referido no livro.
Na Alemanha da década de 30 não havia muito mais do que meio milhão de judeus, cem mil dos quais eram de imigração mais ou menos recente, fugindo aos pogroms da Europa Oriental, procurando abrigo na Alemanha democrática. Era uma comunidade de cerca de 1% da população alemã, em que cerca de quatrocentos mil não teriam grande diferença no aspeto, vestuário, e modo de vida, relativamente aos outros alemães; os mais ortodoxos, mais marcados, eram os outros cem mil. Por isso, Rose passava bem por "ariana".
No romance, vemos todos os dramas e dilemas pelos quais um judeu alemão passava. Uns judeus, sionistas, acentuavam o "problema judaico" dizendo que a solução era migrarem para a Palestina, outros defendiam que os judeus deviam integrar-se nos seus países e ser bons cidadãos e não viam contradição entre ser alemão e ser judeu. Rose foi convidada a participar numa reunião com sionistas, mas o pai era contra eles. De facto, o sionismo também veio da Europa Oriental, Hertzl o fundador, era húngaro.
Mas ao longo da década de 20 recrudesceu o nacionalismo.. A pouco e pouco, aparecem sintomas da mudança do mundo de Rose. Os judeus começam a ser ostracizados e maltratados. Todo o progresso feito nos séculos XVIII e XIX ia por água abaixo, sem nenhuma razão útil. E os degraus em que isso aconteceu e é percebido pela jovem Rose aparecem no romance, desde o assassinato do ministro Rathenau (1922), um industrial e político brilhante que era judeu, até Hitler se tornar Führer (1934), até ao ponto de o namorado, que não era judeu, se ver forçado a abandoná-la.
Quanto à leitura, que solicita muitas informações históricas e enciclopédicas, sugiro que seja o menos interrompida possível, dando aos leitores essas informações de forma rápida e eficiente, para que eles apreendam o essencial da história.
Como a minha edição não tem capítulos assinalados, tenho dificuldade em compreender a sequência do plano de leitura.
Apenas peço a fuga à análise literária classificatória. Por exemplo, importa que eles compreendam os efeitos de o narrador pertencer ao mundo que narra e ser mesmo a personagem principal, do que apenas classificar por ser um narrador de 1.ª pessoa. Um narrador pode ser de primeira pessoa - ser o primeiro a dizer "eu" - e não ser "participante" na história. Lembro-me de histórias de Somerset Maugham em que o narrador inicial nos dá a conhecer as pessoas que contam a história, ele é apenas um meio de levar o leitor a outros narradores em que este, primeiro, se torna junto com o leitor, num narratário. Lembro-me mesmo de uma história infantil em que isso acontece. Se o professor perguntar como é o narrador do conto a resposta será 1ª pessoa, mas "não participante", como em alguns contos e romances do autor acima referido. E esse mecanismo é bastante comum. Estou a lembrar-me de Camilo que conta na primeira pessoa como encontrou a história que vai contar.
Quando referem fuga no capítulo XIV, trata-se da ida dela da aldeia para Berlim. A fuga final, da Alemanha, fica implícita no final do romance.
Receio que "Aulas 1–4: leitura orientada" não seja suficiente para ler a obra inteira. Terá que contabilizar o tempo de leitura na aula e leitura fora da aula para o distribuir pelas aulas disponíveis.
Creio que já falei demais.
Obrigado