Cara colega,
Já há muito tinha reparado nos equívocos bíblicos deste conto de Miguel Torga:
- O episódio da Torre de Babel não tem nada a ver com o dilúvio; acontece depois (Génesis 11);
- Não havia cais de embarque, pois a arca foi construída em terra e só começou a navegar quando a inundação do dilúvio começou: "E durou o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e cresceram as águas e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra" (Génesis 7:17);
- "Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra" - Bem, na verdade, na Bíblia, antes de enviar a pomba, Noé enviou um corvo para ver se já havia terra firme, mas este andava às voltas, confirmando a inexistência de terra firme: "E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra." Depois foi a vez da pomba: "E esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba; mas não tornou mais a ele." (Génesis 8: 7, 10-13);
- Portanto, o conto hipervalorizou a saída do corvo, ignorando a pomba, o que faz todo o sentido como expansão de Génesis 8:7, mas as modificações anteriores ao mito bíblico do dilúvio, que refiro acima, parecem-me escusadas.
Observações da leitura do plano:
- "o aluno terá de se imaginar no lugar de uma personagem, escrevendo o texto na primeira pessoa do singular e adotando uma visão subjetiva sobre os acontecimentos narrados no conto" - é uma boa atividade, que implica uma leitura cuidadosa do texto e um domínio dos recursos gramaticais necessários para mudar a opção de narração e vai ao encontro da primeira leitura de textos diarísticos. A personagem poderá ser Noé, Deus ou Vicente... Como confirmei depois na tabela que aparece mais à frente.
- Na observação do quadro, os alunos notarão um leão já a atacar uma presa. Esperemos que já haveria crias nascidas nos quarenta dias do dilúvio, senão, ficaria uma espécie a menos na natureza.
- A inclusão do artigo do National Geographic pode permitir uma boa discussão sobre ciência e mito.
- A "inserção do conto estudado na obra Bichos." implica a leitura de outros contos? Se for isso, acho ótimo.
- A leitura de um conto tem a vantagem de ser uma obra integral que pode ser, como é este o caso, feita autonomamente pelo aluno, mas não tem as dificuldades de um romance, nem permite o desenvolvimento das mesmas competências de leitura literária.
Obrigado,
Bom trabalho!