Caras colegas:
Retomo aqui questões colocadas na última sessão sobre a distinção entre complemento do nome e modificador restritivo do nome.
Vou ter em conta apenas o nome próprio e apelido Vasco da Gama e o título de obra e nome de personagem O Gato das botas.
Porque não faz sentido, na perspetiva lexical, sintática e semântica, analisar a função sintática dos constituintes “das botas”, no grupo nominal, que corresponde ao nome de uma personagem e ao título da história O Gato das botas e "da Gama", no grupo nominal que corresponde ao nome e apelido Vasco da Gama?
Uma razão fundamental é a própria definição de Sintaxe, que partilhei convosco no documento DT2008_subdominios_resumo. A Sintaxe estuda a estrutura das combinações livres de palavras e de frases, simples e complexas. Ora os grupos nominais O Gato das botas e Vasco da Gama são combinações fixas e não combinações livres de palavras, uma vez que nenhuma das partes que os constituem tem função sintática autónoma, isto é, não é manipulável. Por outro lado, semanticamente, essas partes não contribuem de forma composicional para o significado do grupo, são partes de unidades lexicais com referência fixa – nomes próprios e título.
Isto quer dizer que uma combinação fixa de palavras não admite variação interna, substituição e coordenação, próprias das combinações livres de palavras.
Deixamos de nos referir à entidade única, culturalmente definida, se acrescentarmos ou substituirmos informação à unidade lexical O Gato das botas, como os exemplos a seguir, sem coerência contextual, evidenciam:
(1) O Gato das botas pretas chegou.
(2) O Gato das botas e das luvas chegou.
(3) Chegou o Gato das botas?
(3’) Sim, chegou o Gato delas.
O mesmo acontece com a unidade lexical Vasco da Gama. Deixamos de referir a entidade histórica única se introduzirmos variação neste grupo.
(1) Vasco muito da Gama chegou à Índia em 1498.
(2) Vasco da Gama e do Carmo chegou à Índia em 1498.
(3) Quando chegou Vasco da Gama à Índia?
(3’) Vasco dela chegou à Índia em 1498.
O 1.º volume da Gramática do Português, editada pela Gulbenkian, aborda a noção de grupo nominal como unidade de referência fixa.