O capítulo: “Qual é o papel do conhecimento prévio na compreensão da leitura?” remete-nos para a centralidade que conhecer o mundo que nos rodeia pode ter no processo de compreensão da leitura por parte dos alunos, e do papel que a escola deve ter neste âmbito.
De acordo com o artigo, esta condição revela-se tanto mais importante quanto menos proficientes são os alunos na sua capacidade leitora e tem por base a revisão crítica levada a cabo por um conjunto de investigadores, a vinte e três estudos realizados ao longo dos últimos quarenta anos, sobre a importância do conhecimento prévio, ou seja, o conhecimento geral que os alunos têm do mundo que os rodeia na compreensão da leitura.
De modo a melhor nos inteirarmos da sua relevância, os autores remetem para o modelo de construção-integração de Kintsch (1998), segundo o qual, “(…) a leitura implica a interação entre as representações literais do texto e um esquema com ele relacionado formado pelo conhecimento prévio”. Nessa medida, para que um aluno/ leitor consiga desenvolver uma representação mental do texto, tem de interligar a base do mesmo, constituída por inferências e informações explícitas, a esquemas cognitivos segundo os quais as informações do texto são relacionadas com o conhecimento prévio, anteriormente mencionado.
Assim sendo, e ainda segundo o modelo de Kintsch, os leitores menos proficientes são também aqueles que naturalmente menos inferências conseguem fazer e que menos conseguem relacionar informações dos textos que leem com o conhecimento prévio, resultando numa reduzida compreensão leitora.
A par do conhecimento prévio, o modelo destaca a memória do trabalho (sistema de armazenamento temporário de informação) e as características do texto (coesão, coerência, objetivos e características linguísticas) como fatores importantes na compreensão da leitura, concluindo que leitores que não têm o conhecimento necessário para interligar adequadamente a base do texto aos esquemas cognitivos preexistentes, têm mais dificuldades em compreender o texto lido. Por oposição, segundo o modelo, os alunos / leitores com facilidade de compreensão leitora são os que associam automaticamente as informações do texto ao conhecimento prévio.
Dada a sua importância, leia-se do mundo que nos rodeia, na compreensão da leitura, os autores defendem que o mesmo deve ser promovido em sala de aula e não remetido para a dimensão familiar como tem vindo a acontecer. De acordo com aqueles, cabe aos professores dotar os alunos dessa compreensão.
Esta premissa é fundamentada nos resultados apresentados no artigo. Dos estudos publicados nos últimos quinze anos, relativos a crianças entre os 6 e os 12 anos de idade, concluiu-se que:
a) Níveis elevados de conhecimento prévio resultam numa maior compreensão da leitura;
b) Ainda que parcialmente, o conhecimento prévio pode compensar as baixas capacidades de compreensão leitora;
c) A coesão e a coerência textuais podem atenuar o baixo conhecimento prévio, uma vez que textos mais coesos e coerentes invocam menos inferências;
d) O tipo de texto pode influenciar o efeito compensatório do conhecimento prévio.
Face ao exposto, importa reter que não devemos, enquanto professores, ter a expectativa de que os nossos alunos estão todos dotados das mesmas capacidades de compreensão do corpus textual dos níveis de ensino que ministramos, pois cada um é fruto de um conjunto de valores e experiências familiares distintas. Cabe a nós, enfrentar mais um desafio: fazer da sala de aula e do espaço escolar, em geral, uma amostra tão abrangente, interdisciplinar e enriquecedora quanto possível no processo de desenvolvimento da leitura do mundo, e consequentemente, dos textos.