Reflexão sobre “A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências”

Reflexão sobre “A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências”

by Isabel Araújo -
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O artigo “A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências” torna-se particularmente relevante quando cruzado com “Compreensão de leitura: investigação e ensino”. Isto porque é fundamental que não se considere que existe uma progressão linear entre descodificação e compreensão. Não só a descodificação pode ser trabalhada a par da compreensão, como, assegurada a descodificação, não se pode considerar que a compreensão seguirá autonomamente o seu rumo.

É fundamental a noção de que o estabelecimento de inferências é a base para a compreensão de leitura, mas é ainda mais significativa a noção de que é necessário o ensino explícito para o desenvolvimento de capacidade de inferir, mediante diferentes tipos de texto. Este artigo fez-me refletir sobre o modo como a leitura é negligenciada numa fase do desenvolvimento linguístico dos falantes em que faria todo o sentido a sua centralidade. Reporto-me aos três anos do ensino secundário e à hipertrofia da leitura literária, que, ao contrário do que se poderia considerar, não corresponde a um aprofundamento das competências de leitura dos estudantes. Não é por ser trabalhada a leitura literária que os alunos vão, sem grande intencionalidade, desenvolver a compreensão de leitura. Às vezes, temo que aconteça o contrário, o foco nos textos literários fecha a disponibilidade dos alunos para a compreensão e afasta-os do cânone literário e dos livros, em geral.

Este artigo explora os diferentes tipos de inferências – anafóricas, de conhecimento prévio, preditivas e retrospectivas – apontando pistas de trabalho para cada uma delas. Parece sobressair como mais importante a capacidade por parte do leitor de acionar estratégias metacognitivas, que lhe permitam reconhecer as dificuldades sentidas e ultrapassá-las com progressiva autonomia, recorrendo a quatro estratégias devidamente identificadas: leitura em voz alta, instrução guiada, aprendizagem colaborativa e aprendizagem independente. Estas devem ser alvo de ensino estruturado, sistemático e deliberado.

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Re: Reflexão sobre “A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências”

by Maria de Jesus Gaspar -
Há uma ideia do artigo que me parece particularmente útil para a prática: muitas vezes pedimos aos alunos que façam inferências, mas nem sempre lhes mostramos claramente como se chega a elas.
Perguntamos «O que podemos concluir?», «Porque terá a personagem agido assim?» ou «O que nos permite perceber esta passagem?» e acabamos, muitas vezes, por verificar se o aluno chegou ou não à resposta esperada. O artigo chama precisamente a atenção para esta diferença entre avaliar a capacidade de inferir e ensinar a fazer inferências. Para isso, é preciso habituar o aluno a voltar ao texto, procurar pistas, relacionar informações e recorrer, quando necessário, ao que já sabe.
O «pensar em voz alta» pode ter aqui bastante utilidade, também no 3.º ciclo e no secundário. O professor pode tornar visível um raciocínio que, para um leitor experiente, já é quase automático: «O texto diz isto», «antes aconteceu aquilo», «por isso, posso concluir que…». Aos poucos, esse apoio vai sendo retirado e o aluno começa a fazer esse percurso sozinho.
A questão que a colega coloca sobre o ensino secundário e o peso da leitura literária também me parece interessante. Talvez o problema não esteja propriamente na presença do texto literário, mas em esperar que o contacto com textos mais complexos desenvolva, por si só, uma compreensão mais profunda. O artigo mostra que a capacidade de inferir precisa de ser ensinada de forma explícita e que esse trabalho pode ser feito com diferentes tipos de texto. Aliás, o texto literário parece-me um espaço muito rico para este trabalho: perceber por que razão uma personagem age de determinada forma, relacionar uma atitude com algo que aconteceu antes, antecipar o que poderá acontecer ou compreender aquilo que o autor não diz diretamente. Mas, para que os alunos cheguem a essas interpretações, talvez seja necessário mostrar-lhes primeiro como se constrói esse caminho.
Também me parece importante a progressão sugerida no artigo: começar com maior orientação do professor, passar por um trabalho guiado e colaborativo e caminhar para uma leitura cada vez mais autónoma. O objetivo não será dar ao aluno a interpretação, mas ajudá-lo a adquirir estratégias para conseguir construí-la sozinho.
No fundo, talvez possamos dizer que ler textos mais exigentes não garante, por si só, uma leitura mais profunda. É preciso ensinar os alunos a pensar sobre aquilo que leem. E é precisamente por isso que me parece tão pertinente a ideia central de «A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências»: não basta pedir ao aluno que infira; é preciso ajudá-lo a perceber como se constrói essa inferência.