O artigo “A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências” torna-se particularmente relevante quando cruzado com “Compreensão de leitura: investigação e ensino”. Isto porque é fundamental que não se considere que existe uma progressão linear entre descodificação e compreensão. Não só a descodificação pode ser trabalhada a par da compreensão, como, assegurada a descodificação, não se pode considerar que a compreensão seguirá autonomamente o seu rumo.
É fundamental a noção de que o estabelecimento de inferências é a base para a compreensão de leitura, mas é ainda mais significativa a noção de que é necessário o ensino explícito para o desenvolvimento de capacidade de inferir, mediante diferentes tipos de texto. Este artigo fez-me refletir sobre o modo como a leitura é negligenciada numa fase do desenvolvimento linguístico dos falantes em que faria todo o sentido a sua centralidade. Reporto-me aos três anos do ensino secundário e à hipertrofia da leitura literária, que, ao contrário do que se poderia considerar, não corresponde a um aprofundamento das competências de leitura dos estudantes. Não é por ser trabalhada a leitura literária que os alunos vão, sem grande intencionalidade, desenvolver a compreensão de leitura. Às vezes, temo que aconteça o contrário, o foco nos textos literários fecha a disponibilidade dos alunos para a compreensão e afasta-os do cânone literário e dos livros, em geral.
Este artigo explora os diferentes tipos de inferências – anafóricas, de conhecimento prévio, preditivas e retrospectivas – apontando pistas de trabalho para cada uma delas. Parece sobressair como mais importante a capacidade por parte do leitor de acionar estratégias metacognitivas, que lhe permitam reconhecer as dificuldades sentidas e ultrapassá-las com progressiva autonomia, recorrendo a quatro estratégias devidamente identificadas: leitura em voz alta, instrução guiada, aprendizagem colaborativa e aprendizagem independente. Estas devem ser alvo de ensino estruturado, sistemático e deliberado.