Atividade prática- Que pré-leitura?
Proposta de reflexão didática sobre o papel, a pertinência e os riscos das atividades de pré-leitura no desenvolvimento da compreensão textual.
Exemplo 2- A águia e a tartaruga
1. Em que reside a complexidade do texto?
O vocabulário e sintaxe são simples. A complexidade reside na natureza alegórica e na duplicidade intencional das personagens. A tartaruga promete algo que não possui (como poderia dar à águia todas as riquezas do Mar Vermelho?), e a águia age como animal predador ardiloso. O leitor precisa de inferir a ironia da promessa e a transposição moral dos animais para o comportamento humano.
2. Qual poderá ser o objetivo da leitura?
O objetivo da leitura será analisar o conflito de interesses, a oposição psicológica entre os dois intervenientes na narrativa (ambição ilusória versus pragmatismo predador); descodificar a lição sobre os limites e a identidade; conhecer e reconhecer as características do género fábula e a sua função pedagógica/moral.
3.Que estratégias de pré-leitura se adequam a esse objetivo?
Através da ativação de conhecimento prévio sobre as características reais dos animais, utilizando uma ilustração, normalmente presente nestes livros, e o conhecimento do mundo dos alunos, serão ativados conceitos associados às características e comportamento natural destes animais, normalmente já presentes no imaginário dos alunos (a tartaruga surge nas fábulas associada a alguma lentidão, mas persistência, e a águia é um símbolo de poder, de liberdade).
Outras fábulas poderão ser sucintamente relembradas, por exemplo “A lebre e a tartaruga” para se perceber que estes textos são simbólicos, há uma realidade ficcional e um ensinamento moral. E qual é o objetivo desse ensinamento moral? Para que serve?
4. Que atividades de pré-leitura serão eficazes?
Tabela comparativa rápida no quadro: pedir aos alunos que indiquem duas características físicas e limitações da tartaruga terrestre e duas capacidades da águia.
Exemplo: tartaruga (anda devagar, carapaça pesada, vida terrestre e vida aquática) e águia (voa alto, garras, predadora…).
A seguir, lança-se a questão desestabilizadora: O que poderá acontecer se uma tartaruga se quiser comportar como uma ave de rapina?
Ativar o conceito de género fábula: textos curtos com animais em que existe sempre um conflito que encerra uma lição de vida.
5. Que atividades de pré-leitura poderão ser “armadilhas”?
Antecipar o desfecho ou a lição moral: revelar que a tartaruga vai morrer ou enunciar que “a ambição castiga”. Isso elimina a necessidade de construir inferências durante a leitura, anula a necessidade de leitura atenta e retira o impacto da narrativa.
Transformar a pré-leitura numa atividade exaustiva sobre os animais, afastando a turma da dimensão literária e moral do texto.
Maria Helena Magalhães