Percebo após a leitura da fábula «A águia e a tartaruga», de Esopo, a pré-leitura deve preparar os alunos para compreender a relação entre as características das personagens, as suas escolhas, as consequências dessas escolhas e a moral da narrativa.
1. Em que reside a complexidade do texto?
A complexidade do texto não decorre, julgo da linguagem, relativamente acessível, mas da necessidade de relacionar diferentes níveis de significado.
Por um lado, o vocabulário e a estrutura narrativa são, em geral, acessíveis. Contudo, algumas expressões podem exigir esclarecimento, como «moribunda», «caprichos» e «reestruturar os esquemas cognitivos», esta última no enunciado da atividade.
Por outro lado, o leitor/aluno tem de inferir as motivações da tartaruga e da águia, compreender o contraste entre o desejo e as capacidades da tartaruga e estabelecer relações de causa e consequência.
Ainda se torna necessário interpretar as intenções das personagens, avaliar as suas decisões e refletir sobre a responsabilidade individual e a atuação da águia.
Sendo uma fábula, o texto permite ultrapassar o plano literal e reconhecer uma reflexão sobre a ambição, a insatisfação, os limites pessoais, a prudência e a procura da felicidade.
Há ainda uma dificuldade interpretativa importante: a moral final sugere que nem sempre podemos alcançar os nossos caprichos, mas a narrativa também permite questionar a responsabilidade da águia, que promete ensinar a tartaruga a voar e acaba por a abandonar em pleno voo.
2. Qual poderá ser o objetivo de leitura?
O objetivo, no meu entendimento, deve ser formulado antes de se selecionar a estratégia de pré-leitura, pois é ele que determina quais os conhecimentos prévios relevantes e que atividades serão pedagogicamente eficazes.
Poderia ser, por exemplo: Compreender de que modo os desejos, as características e as decisões das personagens condicionam o desenvolvimento da narrativa e interpretar criticamente a moral da fábula, relacionando-a com situações da experiência humana.
3. Que estratégias de pré-leitura se adequam a esse objetivo?
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Estratégia |
Aplicação à fábula |
Finalidade |
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Ativação conhecimentos prévios |
Recordar as características águia e da tartaruga. |
Antecipar possibilidades narrativas com base no conhecimento do mundo. |
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Antecipação a partir do título |
Formular hipóteses sobre o conflito entre as duas personagens. |
Criar expectativas de leitura. |
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Questionamento orientador |
Refletir sobre a diferença entre desejar algo e ter condições para o alcançar. |
Preparar a interpretação temática. |
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Problematização de uma afirmação |
Discutir se devemos sempre tentar realizar tudo aquilo que desejamos. |
Ativar conhecimentos experienciais e éticos. |
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Previsão e verificação |
Registar hipóteses antes de ler e confrontá-las com o texto. |
Promover a monitorização da compreensão. |
4. Que atividades de pré-leitura serão eficazes?
Uma atividade eficaz deve ajudar o aluno a compreender o texto e, simultaneamente, a reorganizar os seus conhecimentos. Para isso, deve mobilizar ideias relevantes, tornar visíveis conceções prévias e permitir a sua confirmação ou revisão posterior.
Atividade 1 — «Quem pode fazer o quê?»
Objetivo: ativar conhecimentos sobre as características das personagens.
- Apresentar imagens de uma águia e de uma tartaruga.
- Pedir aos alunos que indiquem as características físicas e as capacidades de cada animal.
- Questionar: «Poderá uma tartaruga voar? O que teria de acontecer para isso ser possível?»
Reorganização dos conhecimentos: os alunos mobilizam conhecimentos do mundo natural e distinguem capacidades reais de desejos imaginados. Esta distinção prepara a compreensão do conflito central da fábula.
Ligação à leitura: após a leitura, os alunos verificam de que forma as características das personagens condicionam os acontecimentos e se a sua previsão inicial se confirmou.
Atividade 2 — «Desejar é poder?»
1. Devemos tentar realizar tudo aquilo que desejamos?
2. Reconhecer os nossos limites significa desistir?
5. Que atividades de pré-leitura poderão ser «armadilhas»?
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Atividade potencialmente problemática |
Por que constitui uma armadilha? |
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1. Apresentar antecipadamente a moral da fábula. |
Condiciona a interpretação e reduz a necessidade de inferir o sentido da narrativa. |
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2. Perguntar apenas «O que é uma águia?» e «O que é uma tartaruga?». |
Ativa conhecimentos básicos, mas não os relaciona com o objetivo de leitura. |
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3. Ensinar previamente todos os conceitos e vocábulos do texto. |
Pode sobrecarregar os alunos com informação desnecessária e diminuir a autonomia da leitura. |