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Eu leitora e escritora. Breve história da minha literacia.

Eu leitora e escritora. Breve história da minha literacia.

por Joana Serrano -
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O meu nome é Joana Serrano, tenho 39 anos, sou mãe de um menino de 3 anos e leciono no grupo 200. No presente ano letivo, sou professora de Português e tenho quatro turmas de 5.º ano.

Desde que me conheço, os livros sempre fizeram parte da minha vida, muito por influência do meu pai e do meu avô paterno. Uma das memórias mais doces e marcantes que guardo é a da biblioteca que o meu avô foi construindo ao longo dos seus 93 anos de vida. Recordo-me de ir a casa dos meus avós e passar horas com eles nesse espaço, rodeada de livros — verdadeiros “calhamaços” — numa altura em que ainda não sabia ler. Pedia que me lessem os títulos e, mais tarde, passei a ser eu a fazê-lo, chegando mesmo a levar alguns livros emprestados.

Quando frequentava a escola primária e a professora solicitava trabalhos de pesquisa, lembro-me, em particular, de um sobre as regiões e distritos de Portugal, para o qual recorri à biblioteca do meu avô. Esse contacto precoce com os livros marcou profundamente a minha relação com a leitura e com o conhecimento.

Hoje, como professora, fico triste ao constatar que muitos alunos não sabem requisitar nem manusear um livro, revelando uma relação frágil com a leitura. Observo também dificuldades claras na compreensão e interpretação dos textos, bem como uma acentuada aversão à escrita, frequentemente encarada como uma tarefa penosa e geradora de insegurança. A minha experiência profissional tem-se desenvolvido, sobretudo, em concelhos com escolas inseridas em contextos socioeconómicos mais vulneráveis, situação que tende a acentuar este afastamento face à leitura e à escrita, o que me preocupa e desafia enquanto docente de Português, levando-me a procurar formas de envolver os alunos nestas competências e de lhes mostrar que a leitura e a escrita podem ser um meio de escape, imaginação e descoberta.

Em paralelo, na minha vida pessoal, tenho procurado incutir no meu filho o apreço pelos livros, fazendo com que estes façam parte da nossa rotina diária, assim como a importância de cuidar bem deles. Para além da leitura diária, o meu filho tem um hábito particularmente significativo: depois de fecharmos os livros, costuma dizer “mamã, mais uma, mas agora só com a boca”, revelando que a vontade de ouvir histórias vai muito além do próprio livro.

No que diz respeito à escrita, hoje em dia, esta está muito associada ao lado profissional, sobretudo à criação de materiais de trabalho. Ainda assim, guardo um carinho especial pela escrita criativa, pois adorava escrever composições, atividade que sempre me permitiu explorar a imaginação e expressar ideias e emoções de forma mais livre.

Um dos principais motivos que me levou a inscrever-me nesta ação de formação foi a vontade de adquirir ferramentas que me permitam apoiar os alunos no desenvolvimento da leitura e da escrita. Sinto que os manuais escolares deixaram de ser um verdadeiro instrumento de apoio ao estudo autónomo e passaram, muitas vezes, a ser apenas um objeto que os alunos transportam, sem compreenderem o real significado do que possuem. Gostaria, por isso, de encontrar estratégias que me ajudem a mudar esta relação dos alunos com a leitura e a escrita, tornando-as mais próximas, significativas e motivadoras, ajustando também a minha prática pedagógica e refletindo sobre a forma como posso contribuir para esse processo.

O início da minha história enquanto leitora está profundamente ligado a uma memória afetiva, construída em torno da partilha, do tempo e do afeto, dimensão que considero fundamental na formação de leitores e que procuro preservar e transmitir, em particular, ao meu filho.