Nasci em Angola, no seio de uma família que gostava de contar histórias.
A minha mãe era professora do Ensino Primário e, tanto quanto a minha memória me permite recordar, tratou de estimular a minha imaginação e fantasia, contando-me e recontando-me pacientemente muitas histórias que ela conhecia, transformava ou inventava. E eu queria sempre mais…
Já o meu pai gostava de me ensinar lengalengas, histórias da sua infância e pequenas orações que lhe permitiam recordar a sua distante pequena aldeia da Beira Alta.
Quando cresci um pouco mais, começaram a oferecer-me livros. Naquela época, era bastante popular a coleção Anita. Como ainda não sabia ler, liam-me estes livros em voz alta e eu memorizava-os. A certa altura, e disso lembro-me bem, eu sentava-me na sala, depois do jantar e “lia” em voz alta para os meus pais e irmã, toda feliz e orgulhosa, como quem domina já a leitura!
Foi assim que, sem dar conta, comecei a ler, desta forma tão prazerosa e feliz!
Não gostei nada de entrar para a escola. A minha professora usava o método global, o que para mim, era ótimo, mas implicava recortar umas tiras de palavras e frases, que, em seguida havia de colar para legendar imagens. Ora acontece que eu não tinha grande destreza motora e essas tarefas eram para mim um sofrimento! Não havia autocolantes e a cola branca saía de um frasco enorme e espalhava-se por todo o lado como se tivesse vida própria…
Recordo-me que também não gostei lá muito de segurar o lápis, ao início, mas acabei por tomar o jeito e o gosto.
Quando tivemos de vir para Portugal por causa da guerra, trouxe todos os livros que consegui colocar dentro da minha mochila.
Nessa altura, fomos residir para uma pequena aldeia no interior do nosso país. Não havia, nessa época, dinheiro para comprar livros, nem tinha acesso a bibliotecas, pelo que li e reli inúmeras vezes os livros da minha infância que trouxe de Angola comigo. Ainda tenho alguns!
Mais tarde, fui estudar para um colégio no Porto, pois os meus pais pensaram que seria melhor para mim, para poder ter acesso a uma escola melhor. Foram tempos muito difíceis. Eu tinha muitas saudades de casa, da minha família e dos meus amigos da escola. Por isso, mitigávamos a distância escrevendo cartas uns aos outros. E, para me esquecer da dor que a saudade me causava no peito, refugiava-me na biblioteca. Devorei muitos livros, alguns dos quais eu nem percebia lá muito bem. Havia até um dicionário ilustrado que eu amava. Lia as palavras, os significados das palavras e encantava-me com as ilustrações. Eram momentos mágicos que me faziam viver noutra realidade, muito mais feliz do que a minha vida.
As aulas de Português eram, nesse tempo, também, um conforto e um aconchego. Nunca esqueci uma professora de Português, talvez do quinto ano, que lia muitos livros nas aulas, para nós, em voz alta. Fazia-me tão bem recordar a minha mãe, quando me contava histórias e lia para mim na minha infância. É desse tempo, o meu amigo, o menino Constantino, que guardava sonhos, em vez de rebanhos…
Quando ia a casa, nas férias, pedia livros emprestados aos amigos e familiares (que tinham bastantes, mas nem por isso os liam). Assim, na minha adolescência, conheci José Mauro de Vasconcelos e em seguida, Camilo; Júlio Dinis; Eça; Aquilino Ribeiro.
O gosto que desenvolvi pela Literatura fez-me seguir o caminho das Humanidades, tendo-me licenciado no curso de Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Português e Inglês na Faculdade de Letras do Porto. Conheci e estudei, com bons Mestres, a Literatura Universal e frequentei boas bibliotecas e excelentes livrarias (algumas agora muito famosas para os turistas visitarem, outras infelizmente, já desaparecidas).
Quando terminei o curso, fui Leitora de Português na Universidade da Corunha, na Galiza. Foi uma etapa muito feliz. Pude contactar diretamente com a língua e a literatura galegas. Inebriei-me com leituras pessoais que adiara, principalmente, por falta de tempo, durante a licenciatura.
De regresso a Portugal, fui construindo a minha carreira de professora, paralelamente à minha família. Acredito que partilhei com os meus alunos e com os meus filhos o meu amor pelos livros, pela leitura e pela literatura.
Em 2014, concretizei um dos meus sonhos. Realizei o Mestrado em Didática (ramo de Português) na Escola Superior de Viseu. A minha dissertação de mestrado Estratégias para o desenvolvimento da compreensão de textos literários na sala de aula apresenta um estudo sobre a leitura com intervenção na minha escola, proporcionando conhecimento sobre o desenvolvimento das competências de leitura no universo concreto dos alunos com que trabalhava e com a apresentação de propostas de estratégias para o desenvolvimento da compreensão leitora a partir da leitura de textos literários.
É verdade que a profissão que abracei é muito exigente e, ao longo dos anos, nem sempre me foi possível praticar a leitura da forma que mais gostaria. As responsabilidades escolares; a distância entre a escola e a minha casa; as muitas horas passadas em boleias, ou a conduzir; os compromissos familiares; as lides domésticas consumiam muito do meu tempo e pouco me sobrava para o prazer de ler, muitas vezes relegado para segundo plano, um pouco à noite; um pouco ao fim de semana; um pouco mais nas férias.
Hoje em dia, já disponho de algum tempo para me dedicar mais ao prazer de ler. Frequento, na Biblioteca Municipal de Viseu, o Clube de Leitura Livros às Segundas. É um desafio conseguir ler, pelo menos um livro por mês, do autor que em conjunto selecionamos. Neste momento, estou a ler Sapatos de Rebuçado, de Joanne Harris.
Tem sido uma experiência muito enriquecedora, porque proporciona um encontro mensal de pessoas que gostam de ler e de escrever. Partilhamos pensamentos, ideias, opiniões, sentimentos decorrentes das nossas leituras.
Muitas vezes, agasalhamos a leitura e a conversa sobre os livros com um reconfortante lanche partilhado.
No meu caderninho de escrita, costumo registar impressões mais ou menos longas, conforme o tempo de que disponho e a vontade de escrever, sobre as leituras que faço. Assim, fico com um registo para memória futura, como em tempos de estudante fazia com as fichas bibliográficas para não me esquecer dos autores e das ideias essenciais.
Esta história já vai longa e dou por mim a pensar que gostei de ler desde que me conheço. Agradeço muito aos meus pais e também a muitos dos meus professores que, de forma tão carinhosa me ensinaram a amar os Livros.