Bom dia, Lúcia.
É muito interessante a questão que nos coloca, pois permite articular vários aspetos no âmbito da Análise do discurso e do estudo das Figuras de retórica e tropos, como bem identificou no Dicionário Terminológico (DT 2008).
O responsável pelo domínio C. Análise do discurso, Retórica, Pragmática e Linguística textual, do Dicionário Terminológico, foi o Professor Vítor Aguiar e Silva.
O primeiro aspeto curioso da sua questão é o facto de o livro Boca do Inferno ter sido publicado em 2007 e o Dicionário Terminológico ser uma publicação de 2008. Posso estar a ser demasiado positiva, em relação a Ricardo Araújo Pereira, mas considero-o um humorista muito informado sobre questões ligadas à língua e à literatura.
Na revisão da TLEBS e elaboração do DT 2008, Aguiar e Silva recebeu uma “encomenda” do ME que implicava a elaboração de uma lista de termos rigorosa, mas não demasiado extensa. Teve de fazer várias escolhas e, na minha opinião, escolheu hipérbato, em vez de anástrofe, respeitando esse pedido.
Hipérbato
Figura retórica sintática que consiste na alteração da ordem normal das palavras na frase, pela separação do nome e do adjetivo, pela colocação do sujeito ou do verbo no fim da frase, pelo deslocamento dos pronomes, etc. O deslocamento, ao modificar a ordem natural das palavras num grupo sintático, contribui para conferir àquelas expressividade estilística, mas, se for violento e de longa amplitude na frase, pode obscurecer e tornar difícil a interpretação. (DT 2008)
Esta definição é muito próxima da que se encontra no Dicionário de Termos Literários, de Massaud Moisés, na edição de 1978, da Cultrix.
Neste dicionário, é muito esclarecedora a definição de Anástrofe (o sublinhado é meu).
ANÁSTROFE – Grego anastrofê, inversão.
Figura de construção, espécie de hipérbato, consiste na inversão, para fins estilísticos, notadamente poéticos, da ordem natural das palavras. A inversão, porque suave, não obscurece o sentido do pensamento, como de hábito sucede com o hipérbato. (…) (Moisés, 1978: 27).
Deixo um comentário, ao jeito das conversas que tivemos com o Professor Aguiar e Silva, quando participou na elaboração do DT: Entre a anástrofe, que serve para fins poéticos, e o hipérbato, que desafia os poetas geniais, escolheu o segundo.
Julgo que Ricardo Araújo Pereira conhecia esta diferença entre as duas figuras de retórica, quando escreveu a crónica.
Será que ajudei um pouco no desafio que está a preparar?
Bom trabalho