Reflexão sobre o artigo «Compreensão da leitura em alunos de língua não materna»

Reflexão sobre o artigo «Compreensão da leitura em alunos de língua não materna»

por Paula Morgado -
Número de respostas: 1

Compreensão da leitura em alunos de língua não materna: reflexão crítica

Começo por referir que tenho à minha responsabilidade o ensino de PLNM a duas irmãs gémeas inglesas de 13 anos de idade, o que considero um enorme desafio porque não tenho experiência nem formação na área. Por este motivo, li com especial atenção este capítulo dos Cadernos de Apoio ao Ensino – Compreensão da Leitura (Vol.1). Tenho-me questionado se estarei a proceder bem no que respeita a não recorrer à língua materna das alunas durante as aulas, tenho procurado descobrir qual será a melhor estratégia para conseguir que estas irmãs deixem de resistir ao uso do português na oralidade e preocupa-me que os restantes professores do Agrupamento se sintam limitados ao trabalhar os conteúdos das suas disciplinas com estas alunas.

O texto de apoio Como aumentar a compreensão da leitura de alunos de língua não materna, de Soraia Araújo e João Lopes (programa AaZ, Iniciativa Educação), responde a uma questão pertinente: o professor pode/deve recorrer à língua materna do aluno para melhorar a sua compreensão e o seu empenho na aprendizagem da língua não materna em uso na escola? Para responder, analisa-se um estudo de caso, o de Hina, uma aluna japonesa do 2.º ano, que lê o mesmo texto em japonês e em inglês.

Em vez de considerar a língua de origem dos alunos um obstáculo, o texto apresenta o conceito «fundos do conhecimento», que coloca os pontos fortes linguísticos e culturais dos alunos no centro da aprendizagem. Esta posição vai ao encontro da importância do conhecimento prévio na compreensão.

O caso refere também uma prática interessante: a Hina não lê os dois textos em sequência, mas alterna entre eles, usando o que conhece de cada um para construir significado. Confirma-se desta forma que o conhecimento numa língua pode apoiar a leitura noutra.

São-nos feitas algumas recomendações concretas, nomeadamente consultar os encarregados de educação e comparar as duas línguas.

No entanto, comparando a criança Hina com as minhas duas alunas inglesas, surgem-me algumas dúvidas: a Hina frequenta uma escola japonesa aos sábados, aprende inglês durante a semana e conta com o apoio da família. As minhas alunas inglesas não frequentam uma escola inglesa aos sábados. Contarão realmente com o apoio da família (se a única vez que praticaram a língua portuguesa nas férias de verão foi numa ida ao restaurante)? No caso de duas alunas inglesas não será muito difícil, mas como pode um professor que não domina outras línguas selecionar os textos, avaliar a leitura ou encontrar erros na língua materna dos alunos?

Para concluir, devo referir que gostaria bastante de ter encontrado neste caderno uma reflexão sobre a realidade portuguesa do Português Língua Não Materna. Enquanto professora, percebo que não se nasce leitor, os bons leitores fazem-se e os professores têm um papel crucial na formação de sujeitos leitores (Roux-Baron, 2019). Quanto mais dificuldades na leitura, menos se lê, quanto menos se lê, menos se treina a leitura e menos se aprende (Cunningham, & Stanovich, 1998). Porque, no final, a leitura é “the mother of all skills” (Andreas Schleicher - OCDE) e pretende-se integrar todas as crianças no círculo virtuoso da leitura.

 

Referências

Araújo, S., & Lopes, J. (2026). Como aumentar a compreensão da leitura de alunos de língua não materna. Texto de apoio 41 do programa AaZ — Ler Melhor, Saber Mais. Iniciativa Educação.

 

Howard, D. (2022). Empowering reading with home language texts. The Reading Teacher, 75(5), 649-654. https://doi.org/10.1002/trtr.2081

Em resposta a 'Paula Morgado'

Re: Reflexão sobre o artigo «Compreensão da leitura em alunos de língua não materna»

por Maria de Jesus Gaspar -
A reflexão da colega fez-me pensar nas dificuldades muito concretas que refere em relação às duas irmãs gémeas e numa situação que acontece muitas vezes com alunos de língua não materna: quando respondem pouco, hesitam ou dão respostas muito simples, podemos achar que não compreenderam, quando a dificuldade pode estar sobretudo em conseguir exprimir, em português, aquilo que perceberam.
Uma resposta curta ou com erros não significa necessariamente que o aluno não tenha compreendido. Às vezes, é preciso encontrar outras formas de perceber o que entendeu: pedir-lhe que ordene informação, escolha entre várias hipóteses, associe imagens ou palavras ou faça um pequeno reconto com algum apoio. E isto leva-nos também à avaliação: até que ponto estamos a avaliar a compreensão do texto e até que ponto estamos a avaliar o domínio que o aluno já tem da língua portuguesa?
A propósito das dúvidas colocadas pela colega, fui consultar as Orientações para o Nível Zero, coassinadas pela Dr.ª Susete Albino, e encontrei algumas ideias que me pareceram úteis também para este caso. Uma delas é a de que a língua materna não precisa de ser afastada para que o português seja aprendido. Pode funcionar como apoio e como ponte. No caso destas duas alunas, por exemplo, o inglês pode ser usado como língua-ponte, recorrendo-se também a imagens, gestos ou outros recursos, sem que isso signifique desistir da aprendizagem do português (Caels, Segura & Albino, 2025).
Um aluno pode estar ainda pouco disponível para falar português e, ao mesmo tempo, estar a ouvir, a tentar perceber e até a compreender parte do que se passa. Por isso, alguma resistência em falar não deve ser logo entendida como falta de vontade ou falta de compreensão. 
Outra ideia que me parece útil é a de que o professor não tem de dominar a língua materna do aluno para valorizar aquilo que ele já sabe. Mesmo uma pequena leitura ou produção escrita nessa língua pode dar pistas sobre competências de literacia já adquiridas. E, na avaliação, podem ser usadas tarefas que permitam mostrar compreensão sem exigir logo uma produção oral ou escrita elaborada: apontar, associar, selecionar ou responder de forma muito breve.
Quanto à família, também me parece importante não colocar sobre ela a responsabilidade de ensinar português ou de passar a falar português em casa. As orientações referem expressamente que não se deve apelar ao uso do português no contexto familiar e lembram que o desenvolvimento da língua materna pode apoiar a própria aprendizagem do português.
No fundo, fico com esta ideia: uma dificuldade em português não é necessariamente uma dificuldade de compreensão. Antes de concluirmos que o aluno não percebeu, talvez seja preciso dar-lhe outras formas de mostrar aquilo que já conseguiu compreender.
Referência:
Caels, F., Segura, J., & Albino, S. (2025). Inclusão linguística e curricular de alunos migrantes: Orientações para o Nível Zero. Direção-Geral da Educação.