Reflexão sobre o artigo «Compreensão da leitura em alunos de língua não materna»

Re: Reflexão sobre o artigo «Compreensão da leitura em alunos de língua não materna»

por Maria de Jesus Gaspar -
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A reflexão da colega fez-me pensar nas dificuldades muito concretas que refere em relação às duas irmãs gémeas e numa situação que acontece muitas vezes com alunos de língua não materna: quando respondem pouco, hesitam ou dão respostas muito simples, podemos achar que não compreenderam, quando a dificuldade pode estar sobretudo em conseguir exprimir, em português, aquilo que perceberam.
Uma resposta curta ou com erros não significa necessariamente que o aluno não tenha compreendido. Às vezes, é preciso encontrar outras formas de perceber o que entendeu: pedir-lhe que ordene informação, escolha entre várias hipóteses, associe imagens ou palavras ou faça um pequeno reconto com algum apoio. E isto leva-nos também à avaliação: até que ponto estamos a avaliar a compreensão do texto e até que ponto estamos a avaliar o domínio que o aluno já tem da língua portuguesa?
A propósito das dúvidas colocadas pela colega, fui consultar as Orientações para o Nível Zero, coassinadas pela Dr.ª Susete Albino, e encontrei algumas ideias que me pareceram úteis também para este caso. Uma delas é a de que a língua materna não precisa de ser afastada para que o português seja aprendido. Pode funcionar como apoio e como ponte. No caso destas duas alunas, por exemplo, o inglês pode ser usado como língua-ponte, recorrendo-se também a imagens, gestos ou outros recursos, sem que isso signifique desistir da aprendizagem do português (Caels, Segura & Albino, 2025).
Um aluno pode estar ainda pouco disponível para falar português e, ao mesmo tempo, estar a ouvir, a tentar perceber e até a compreender parte do que se passa. Por isso, alguma resistência em falar não deve ser logo entendida como falta de vontade ou falta de compreensão. 
Outra ideia que me parece útil é a de que o professor não tem de dominar a língua materna do aluno para valorizar aquilo que ele já sabe. Mesmo uma pequena leitura ou produção escrita nessa língua pode dar pistas sobre competências de literacia já adquiridas. E, na avaliação, podem ser usadas tarefas que permitam mostrar compreensão sem exigir logo uma produção oral ou escrita elaborada: apontar, associar, selecionar ou responder de forma muito breve.
Quanto à família, também me parece importante não colocar sobre ela a responsabilidade de ensinar português ou de passar a falar português em casa. As orientações referem expressamente que não se deve apelar ao uso do português no contexto familiar e lembram que o desenvolvimento da língua materna pode apoiar a própria aprendizagem do português.
No fundo, fico com esta ideia: uma dificuldade em português não é necessariamente uma dificuldade de compreensão. Antes de concluirmos que o aluno não percebeu, talvez seja preciso dar-lhe outras formas de mostrar aquilo que já conseguiu compreender.
Referência:
Caels, F., Segura, J., & Albino, S. (2025). Inclusão linguística e curricular de alunos migrantes: Orientações para o Nível Zero. Direção-Geral da Educação.