Reflexão «Compreensão da Leitura – Vol.1»

Reflexão «Compreensão da Leitura – Vol.1»

por Maria Madalena Barreiro -
Número de respostas: 1

A competência da leitura tem ocupado um lugar central na minha curta  experiência de prática pedagógica, não apenas enquanto domínio específico da disciplina de Português, mas como uma competência transversal e indispensável à aprendizagem em todas as áreas do saber. A leitura deste caderno veio reforçar a convicção que tenho vindo a consolidar de que muitos dos insucessos escolares atribuídos à falta de estudo, de atenção ou de conhecimentos resultam, na verdade, de dificuldades na compreensão daquilo que se lê e, muitas vezes na falta de compreensão das instruções dadas pelos professores.

Um dos aspetos mais relevantes dos vários artigos do caderno é a ideia de que saber ler não significa apenas conseguir descodificar palavras. Um aluno pode ler um texto em voz alta com correção e fluência e, ainda assim, não compreender verdadeiramente o seu conteúdo. A compreensão leitora exige a mobilização simultânea de diferentes conhecimentos e processos: vocabulário (com destaque especial para expressões idiomáticas e expressões figurativas), conhecimento linguístico e conhecimento prévio, reconhecimento da estrutura do texto, capacidade de estabelecer inferências, identificação das ideias principais e a monitorização da própria compreensão de um texto.

Esta perspetiva leva-nos a reconhecer que a compreensão da leitura não se desenvolve de forma espontânea nem pode ficar dependente apenas da quantidade de textos que os alunos leem. É uma competência complexa que precisa de ser ensinada de forma explícita, sistemática e progressiva. O professor deve modelar os processos de pensamento envolvidos na leitura, mostrando aos alunos como identificar uma ideia principal, relacionar informações, resolver dúvidas, procurar o referente de um pronome, deduz uma informação implícita ou recorre ao contexto para compreender uma palavra desconhecida. As sugestões de várias práticas referidas ao longo dos artigos demonstram que não será difícil colocá-las em prática em sala de aula. Neste sentido, considero particularmente importante o ensino das inferências. Muitos alunos permanecem numa leitura superficial porque procuram no texto uma resposta transcrita de forma literal. Quando a resposta exige relacionar diferentes informações, ativar conhecimentos prévios ou compreender algo que não está explicitamente dito, revelam maiores dificuldades. Ensinar a inferir é ensinar a pensar, a formular hipóteses e a justificar interpretações com base em indícios textuais.

Também o conhecimento prévio assume um papel determinante. Quanto mais amplo for o conhecimento do mundo do aluno, mais possibilidades terá de estabelecer relações e de construir uma representação do texto. Esta constatação reforça a importância de contextualizar as obras literárias, promover o diálogo entre disciplinas e proporcionar experiências diversificadas de leitura. A interdisciplinaridade deixa, assim, de ser apenas uma opção metodológica e passa a constituir uma condição facilitadora da compreensão por parte dos alunos.

A reflexão torna-se ainda mais pertinente quando pensamos nos alunos de Português Língua Não Materna, atendendo aos desafios acrescidos ao nível do vocabulário, das estruturas sintáticas, das expressões idiomáticas e das referências culturais. Como não tenho experiência no ensino da disciplina Português Língua Não Materna torna-se mais difícil a reflexão nesta área. Trabalho, no entanto, com alunos estrangeiros que, não tendo o Português como Língua Materna, tenho de lhes orientar a aula de forma diferenciada.

Esta leitura confirmou-me, por isso, que trabalhar a compreensão leitora não consiste apenas em apresentar um texto e colocar perguntas. Implica acompanhar o aluno no processo de construção do sentido, tornando visíveis os mecanismos que um leitor proficiente utiliza quase de forma automática. Enquanto professora de Português, considero que esta é uma das minhas principais responsabilidades: não apenas ensinar conteúdos, mas proporcionar aos alunos instrumentos que lhes permitam compreender, interpretar, questionar e aprender autonomamente.

Investir na literacia da leitura é investir no sucesso escolar global. Um aluno que compreende o que lê interpreta melhor um problema de Matemática, acompanha com maior facilidade um texto de História, entende uma experiência de Ciências e organiza melhor o seu próprio pensamento. Ensinar a ler é ensinar a aprender ou, como surge na capa dos Cadernos de apoio ao ensino “A a Z - Ler melhor Saber mais.”

Em resposta a 'Maria Madalena Barreiro'

Re: Reflexão «Compreensão da Leitura – Vol.1»

por Ana Sofia Ferreira -
Cara Madalena,
obrigada pela reflexão no sentir de que efetivamente temos de trilhar caminhos que levem os alunos à compreensão leitora de forma consciente, pois é permente. A assunção da responsabilidade é o mote, não fosse ele poético e promissor, para nas voltas da sala de aula criarmos encontros explícitos e pensados com a literatura como geradora de conhecimentos. A tua reflexão vai, efetivamente, ao encontro do que penso, com a retoma que fizeste tão significativa do título que surge na capa dos textos. Sim, no diálogo entre as disciplinas está o fazer da informação conhecimento. Acredito muito nisso. Todos juntos conseguiremos ensinar os nossos alunos a ler, para que consigam aprender.