Reflexão - A Compreensão da Leitura

Reflexão - A Compreensão da Leitura

por Paula Marçal -
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Saber como ensinar os alunos a compreender aquilo que leem é um dos maiores desafios para um professor. A leitura dos artigos deste caderno levou-me, sobretudo, a refletir sobre a complexidade desse processo e sobre alguns dos fatores que o influenciam.

 Uma primeira ideia a reter é que compreender não resulta apenas da capacidade de descodificar palavras: um leitor fluente pode não estar, efetivamente, a compreender aquilo que lê. A compreensão da leitura é um processo complexo e multifacetado, no qual intervêm fatores como o conhecimento prévio do leitor, as características do texto e o próprio propósito da leitura.

 Entre estes fatores, o conhecimento prévio assume particular importância. Quanto maior for o conhecimento do mundo, maior será a facilidade em estabelecer relações entre as ideias do texto e aquilo que já se sabe e, consequentemente, em construir novos significados. Embora a responsabilidade pelo desenvolvimento desse conhecimento seja ainda muitas vezes atribuída às famílias, cabe também à escola proporcionar a todas as crianças oportunidades de adquirir e alargar o seu conhecimento acerca do mundo.

 Esta relação entre conhecimento prévio e compreensão torna-se particularmente evidente quando pensamos nas inferências. Compreender exige retirar do texto informação que não se encontra explicitamente escrita. Uma das ideias que mais me fez refletir foi precisamente esta: não basta propor atividades que exijam inferências, é necessário ensinar os alunos a estabelecê-las. Para isso, o professor pode, por exemplo, tornar visível o raciocínio do leitor através de estratégias de modelagem e de pensamento em voz alta.

 Outras estratégias pertinentes abordadas nestes artigos passam pelo conhecimento da organização e da estrutura dos textos, pela identificação da ideia principal e pela elaboração de resumos. Também aqui o ensino deve ser explícito, sendo o próprio resumo entendido não apenas como um produto final da leitura, mas como uma estratégia de compreensão.

 Neste processo, o professor pode mostrar o raciocínio utilizado durante a leitura, formular hipóteses, verbalizar dúvidas, rever interpretações e demonstrar como ultrapassa dificuldades. Uma sugestão particularmente interessante consiste em colocar-se no papel de um leitor com dificuldades perante um texto complexo, procurando perceber o que torna esse texto difícil. Esta mudança de perspetiva pode ajudar a compreender melhor os obstáculos com que os alunos se deparam e a pensar em formas de os ajudar a ultrapassá-los.

 Outra ideia que merece reflexão prende-se com a motivação para a leitura. O envolvimento ativo do leitor com o texto é parte fundamental do processo de compreensão. Assim, promover a motivação para ler não deve ser entendido como algo separado do ensino da compreensão, mas como uma condição importante para que esta aconteça.

 Concluindo, promover a compreensão da leitura exige uma abordagem multifacetada. No entanto, talvez uma das ideias mais relevantes destas leituras seja a necessidade de tornar explícitos processos que, para um leitor experiente, já se tornaram quase automáticos. Não basta pedir aos alunos que façam inferências, identifiquem a ideia principal, resumam ou interpretem um texto. É necessário ensinar-lhes como o fazer, mostrando estratégias, tornando visível o raciocínio do leitor e ajudando-os progressivamente a utilizá-las de forma autónoma. Mais do que avaliar se o aluno compreendeu, importa perceber de que ferramentas necessita para conseguir compreender. É talvez aqui que reside um dos maiores desafios do ensino da leitura.