Trabalho final - Jorge Gonçalves

Trabalho final - Jorge Gonçalves

por Jorge Gonçalves -
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Em resposta a 'Jorge Gonçalves'

Re: Trabalho final - Jorge Gonçalves

por Luís Filipe Redes -
Olá,
Estou a ler "O conto da Ilha desconhecida" de José Saramago. Quando se diz que o homem que exigiu a presença do rei "deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio", este artigo definido em "a manta", pressupõe que nesse universo ficcional era comum as pessoas andarem com mantas, não acham? Aqui temos um exemplo de uma inferência que se tem de fazer que implica o conhecimento do leitor. Lembrei-me de no Banquete de Platão, Alcibíades, salvo erro, dizer que Sócrates, na guerra, estava sempre disposto a emprestar a manta. Cada soldado teria a sua manta.
Em resposta a 'Jorge Gonçalves'

Re: Trabalho final - Jorge Gonçalves

por Luís Filipe Redes -

Boa noite,

O plano apresentado teve para mim algumas dificuldades de leitura, embora seja de reconhecer a sua riqueza em materiais e sugestões de trabalho. 

Não consegui entender a sequência de atividades. A leitura do texto parece estar dividida em duas partes, o que me parece acertado. Deveriam ser consecutivas, já que se trata de um conto que tem uma coerência que se perde se forem introduzidos momentos de análise ou de explanação de conteúdos programáticos que parta a leitura.

Assim, a "leitura integral orientada da obra ao longo das aulas 1 a 4" parece-me demasiado alongada. A "análise do estilo de Saramago (pontuação, narrador, discurso direto)" se se trata da famosa questão da pontuação de Saramago, deve ser tratada como uma dificuldade a ser resolvida logo no princípio, como mero problema de leitura e não como um conteúdo a sistematizar nesse momento. Desde que os alunos compreendam como se passa do discurso do narrador para o discurso direto da personagem o que temos de fazer é prosseguir com a leitura para não perder o fio da história.

A divisão entre o domínio da leitura e o da educação literária é inútil, mas é um problema provocado pelas AE. As "atividades de antecipação (título, capa, hipóteses)" envolvem conceitos de leitura literária. Creio que se ganharia em não os separar.

Uma vez completada a leitura do texto incluindo a resolução de dificuldades de vária ordem no seu percurso, como problemas vocabulares e enciclopédicos ("pragmática", "baldeação", "estibordo", etc.), podemos voltar ao texto para tratar dos aspetos muito bem apresentados no plano.

Tomei nota de alguns aspetos que me pareceram interessantes: 

  • Por exemplo, "Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar" (p. 37) é um quiasmo interessante. O professor pode tomar nota destes e de outras figuras relevantes para analisar com os alunos. A classificação da figura de retórica, apesar de não fazer parte do programa, pode eventualmente ser referida, mas o mais interessante é pedir aos alunos que refiram frases deste género ou que as inventem, o que não é fácil.
  • Metáforas explicadas no texto: "As velas são os músculos do barco,"; "o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa as pessoas".
  • O anacronismo: paquetes misturados com caravelas: "A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente"; "meteu as chaves no seio" (p. 38); "Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos (inventados em 1827).
  • "Ainda ontem" - neste contexto, poderia ser um erro no relato do discurso. Se é o narrador que fala deveria ser "no dia anterior" (41),
  • Proposição boa para discutir: "É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio." (52).

Obrigado

Bom trabalho!