Li, com especial atenção, o capítulo "A importância de aprender e ensinar a estabelecer inferências", que me pareceu particularmente pertinente, tendo em conta a minha experiência como professor.
No contexto actual, onde muitos alunos do 3.º ciclo do Ensino Básico e do Secundário ainda apresentam dificuldades na descodificação das palavras (e, por consequência, na compreensão, na ligação e na interpretação das ideias), é insuficiente, apenas, avaliar os resultados obtidos nas leituras. Embora a descodificação das mensagens textuais seja condição essencial, compreender exige outras operações cognitivas das quais se destaca o estabelecimento da inferência; recordo, a título de exemplo, um dos descritores das Aprendizagens Essenciais para o 10.º ano na disciplina de Português, no que concerne o domínio da Leitura, que «[o] aluno deve ficar capaz de [...] [i]nterpretar o sentido global do texto e a intencionalidade comunicativa com base em inferências devidamente justificadas» (pág. 7). Urge, assim, ensinar explicitamente os processos mentais que permitem construir o significado e ir além de uma leitura superficial.
Como se lê no referido capítulo, «estabelecer inferências constitui [...] a pedra angular da compreensão da leitura» (p. 22), ideia em que nem sempre me detive com a devida atenção. Essa afirmação recorda-nos que compreender não consiste apenas em localizar informação, mas, sobretudo, no estabelecimento relações entre o que o texto apresenta, o conhecimento prévio do leitor e as experiências que este mobiliza durante a leitura. O professor de Português deve, por isso, procurar orientar os alunos na formulação de hipóteses, na antecipação de sentidos, na recuperação de informações anteriormente apresentadas e na fundamentação das suas interpretações.
Se, então, o estabelecimento de inferências constitui a base da compreensão, a estratégia de «pensar em voz alta» (p. 23) oferece ao professor um modo concreto de ensinar essa competência. Ao verbalizar o seu próprio raciocínio, o professor torna explícitas operações mentais que, muitas vezes, permanecem ocultas: identificar uma pista, relacioná-la com outra informação, reconhecer uma dificuldade ou rever uma conclusão. Deste modo, os alunos aprendem não apenas o que devem compreender, mas também como podem compreender melhor.
Desta maneira, combater o declínio da literacia exige ultrapassar um ensino centrado na procura mecânica da resposta certa ou em interpretações sem fundamentação textual. É necessário formar leitores activos, conscientes e autónomos, capazes de ultrapassar o imediato, interpretar com fundamento e questionar criticamente os discursos que organizam a nossa vida.